Na sala de aula de uma escola, enquanto o professor não chega, reina a anarquia total. Esta anarquia é pautada, claro está, pelos tradicionais aviõezinhos de papel que esvoaçam de uma ponta à outra. O professor chega, mas hoje o dia, mais do que a mera aula, irá ser diferente para estes alunos. “Atenção, por favor”, pede o docente, “arrumem as vossas coisas porque hoje vamos ao teatro!” Por uma certa razão, imaginem qual, esta notícia é recebida com desafogo.
Quem é transmontano tem esta experiência impregnada na memória graças à Filandorra, uma companhia que tem desempenhado um papel primordial no que toca à descentralização do teatro – a arte que dá vida e expressão às estórias. Peças como o “Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente, o “Macaco de Rabo Cortado”, de António Torrado, ou ainda “Falar a Verdade a Mentir”, de Almeida Garrett, andam sempre na malinha da Filandorra para “incutir nos jovens a estética e a vivência do espectáculo teatral.” Quem o diz é David Carvalho, o encenador e director artístico da companhia.

David Carvalho no seu gabinete
Para conhecer melhor quem em Trás-os-Montes interpreta estórias há 25 anos, dirigi-me à sede dos Bombeiros-Cruz Branca de Vila Real. Assim que entrei no pequeno gabinete do director, este perguntou-me se a estrutura do espaço não me era familiar. A sala estava devidamente isolada e reparei numa grande janela rectangular na parede lateral: sim, encontrava-me nas instalações da primeira estação de rádio da cidade. O exíguo espaço não me pareceu fazer jus à mais antiga companhia de teatro transmontana, mas pude perceber logo o porquê: segundo David, “já há mais de duas décadas que o espaço é provisório”. O director aproveita para rematar: “É anacrónico, no século XXI, ainda estarmos aqui.”

Sede da Filandorra nos Bombeiros Cruz Branca de Vila Real
Se fizermos uma consulta rápida à imprensa vila-realense percebemos que a luta por uma residência adequada não é só de agora. Numa notícia publicada no “Diário de Trás-os-Montes”, em 2004, David Carvalho declarou que a autarquia não cumpriu a “velha promessa” que visava um espaço fixo no Teatro de Vila Real. Vítor Nogueira, director do teatro, avançou que não tinha conhecimento dessa negociação e referiu: “enquanto me mantiver à frente deste equipamento, não haverá nenhuma companhia residente”. Tal facto, todavia, não o impediu de afirmar que a Filandorra seria “tratada de forma privilegiada em relação às outras companhias teatrais”. Relembro que esta notícia saiu no ano de 2004 e estamos já em 2012. Quais as mudanças? Não só a Filandorra continua num “espaço provisório” como, segundo David Carvalho, “não há este ano um único espectáculo da companhia no Teatro de Vila Real”. O início de 2012 trouxe, no entanto, uma boa nova para a Filandorra. Segundo um artigo do jornal “A Voz de Trás-os-Montes“, publicado no mês de Janeiro, “a vereadora da Câmara Municipal de Vila Real, Dolores Monteiro, deixou a garantia de que a autarquia irá ceder uma das escolas do centro da cidade (que serão encerradas) à companhia de teatro vila-realense.” Veremos, em Dezembro, qual será o desfecho final.
Tive, entretanto, a oportunidade de escutar Vítor Nogueira. Quanto à suposta sede no Teatro de Vila Real, o director frizou o seguinte: “deixei sempre claro que na estratégia cultural traçada para o teatro não caberia nunca o acolhimento de uma companhia residente no edifício.” Avançou que “não compete ao director, tendo em conta desde logo as funções que lhe estão atribuídas, atribuir uma sede à Filandorra, ou a qualquer das outras companhias profissionais de teatro da cidade, designadamente a Urze e a Peripécia.” Aproveitou para completar que lhe compete, antes, “colaborar o mais possível com todas elas e com todos os agentes culturais na procura daquilo a que se chama serviço público.”
Quanto ao facto de se afirmar que este ano não há nehuma peça da Filandorra no teatro, Vítor Nogueira relembrou que “a programação para 2012 ainda está em aberto para o segundo semestre, e portanto dizer-se que não há ali este ano um único espectáculo da Filandorra é prematuro.”
Durante o decorrer dos anos houve, no entanto, uma pequena vitória para a companhia: a criação de uma ludo-teatroteca, a “Filandorrinha”, instalada no Teatro de Vila Real. O projecto, derivado de um concurso público aberto pelo próprio teatro, visava promover vários ateliês direccionados para as crianças, para lhes incutir o gosto pelos jogos dramáticos e teatrais. O director e encenador da companhia relembrou que a teatroteca “foi a primeira do país a crescer”, não obstante, avançou que não a “deixaram expandir-se e desenvolver-se”, acabando por ter de sair do espaço que lhe fora destinado. Sobre esta questão, Vítor Nogueira explicou que tal se deveu ao ” incumprimento do contrato estabelecido, por parte da Filandorra.” Este projecto acabou por sucumbir, é certo, mas a “Filandorrinha” continua a ensinar a estética do teatro às crianças através de ateliês desenvolvidos em bibliotecas municipais.
A Filandorra não é só Vila Real, passa também pelo nordeste transmontano e alcança as franjas do Minho e das Beiras. Apesar da supra-referida crise que o país atravessa e da difícil situação financeira das câmaras municipais, a companhia conta com o apoio de uma rede de 20 autarquias que, segundo David Carvalho, “nunca deixou a Filandorra ficar mal”. “Temos uma rede grande e o mercado é polarizado”, continuou David, o que ajuda a suportar o corte de 38%, que é transversal a todas as companhias de teatro. Para além das representações para o público escolar, o director revelou que também é extremamente importante “o trabalho de formação e o trabalho cénico desempenhado junto das comunidades”. As encenações teatrais do II Festival de Ouro Romano, em Vila Nova Pouca de Aguiar, são um bom exemplo do trabalho que a companhia desenvolve junto das populações, mas não é só. A comemoração dos 500 anos do foral atribuído, em 1512, a Vilas Boas, freguesia do concelho de Vila Flor, também esteve ao encargo da Filandorra. Estas actividades representam apenas outras formas da companhia chegar às pessoas.
“Nós não desenvolvemos só trabalho de literatura”, advertiu David Carvalho, a companhia de teatro também oferece formação. É em Alfândega da Fé, concelho do distrito de Bragança, que a Filandorra mantém uma escola de teatro em parceria com o município. Este projecto é primordial porque está a educar as novas gerações para o teatro, mas mais importante do que isso, está a levar esta arte a sítios que não tinham acesso a ela. Esta questão leva-nos a outro ponto. Não é segredo nenhum que a produção teatral está centralizada em dois grandes polos – Lisboa e Porto. É justamente a “produção” que este projecto visa incentivar ao dar as ferramentas certas para que outras companhias possam prosseguir, tal como o Grupo de Teatro de Alfândega da Fé.

“Cal” de José Luís Peixoto
A Filandorra também “é serviço público”, assim me disse o director. Não pensa somente nos mais novos mas também nos “idosos que não têm dinheiro para se deslocar.” Foi justamente em Alfândega da Fé, lugar em que a companhia esteve em residência artística durante os dois últimos meses de 2011, que a trupe de David Carvalho deu vida e expressão às personagens da peça “À Manhã”, do escritor José Luís Peixoto. A peça está enquadrada em “Cal”, um livro de ficção, poesia e prosa dedicado à terceira idade. A verdadeira inspiração do livro centra-se não em Trás-os-Montes mas no Alentejo, donde o escritor é natural. Mas a interioridade humana não conhece pátria e os problemas afectos à terceira idade são partilhados por todos os nossos velhos de norte a sul do país: foi o que a Filandorra provou com esta produção.
Esta aproximação aos escritores contemporâneos deve-se, segundo David Carvalho, à tentativa de se estabelecer uma ponte “com a dramaturgia contemporânea”. Não são só dramaturgos como Gil Vicente ou Almeida Garrett que contam no cardápio da Filandorra: os transmontanos A.M. Pires Cabral e Alexandre Parafita também estão presentes. Por falar em A.M.Pires, o director e encenador da Filandorra confidenciou que gostaria de lhe “fazer uma homenagem no futuro”. Miguel Torga, claro, não poderia ser esquecido, e no ano em que se celebrou o centenário do nascimento do escritor, em 2007, a Filandorra estreou a peça “Terra Firme”: esta produção acabou por percorre 11 concelhos da região do Douro.
Mas voltemos à peça “À Manhã”, de José Luís Peixoto. O ano de 2012 foi catalogado como o “Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações”. A Filandorra decidiu aglutinar este acontecimento com a comemoração do dia mundial do teatro, que ocorreu no dia 27 do último mês de Março: para tal, a companhia decidiu interpretar uma vez mais a peça “Á Manhã”, nos claustros do Ex Governo Civil de Vila Real. Num trabalho articulado com os Serviços de Acção Social da Câmara Municipal da cidade e com as IPSS do concelho, os “velhinhos” puderam ir à sessão da tarde sem terem de pagar bilhete. Simultaneamente a companhia lançou um desafio aos mais jovens e pediu-lhes para levarem um “velhinho” ao teatro: para muitos daqueles idosos aquela foi a primeira vez que assistiram a uma peça teatral.
Entrei nos Claustros do Ex-Governo Civil de Vila Real quando ainda faltava meia hora para a peça começar – o início estava previsto para as 15 horas da tarde. Nessa altura já o local se encontrava repleto de idosos, sentados nas suas cadeiras, à espera de ouvir as habituais pancadas de Molière que precedem um espectáculo teatral.

Claustros do Ex Governo Civil de Vila Real
Silvina Lopes, a relações públicas da companhia, não parava de dizer: “Eles vieram cedo, eles vieram muito cedo!” O palco estava ainda em construção e os idosos esperavam com um ar divertido: o ar que todos ostentamos quando algo de diferente surge no nosso dia-a-dia. Eu aproveitava a espera para perguntar se já tinham ido ao teatro antes. “Não” era a resposta comum até que António Carvalho respondeu: “Eu já fui uma vez, mas isso foi no tempo em que estava na Inglaterra. Isto até é uma coisa gira.”
A hora do início aproximava-se e as pessoas iam ocupando o seu respectivo lugar: uns acelerando o passo, outros retardando-o devido à bengala. Passo a passo, segundo a segundo, a sala ia ficando repleta. Os actores, mais velhos devido à caracterização, invadiram finalmente o palco para contar a estória da “Ti Irininha”, da “Ti Macha”, da “Ti Olga”, do “Ti Estragão” e do “Ti Vlademiro”. À medida que a peça decorria ouviam-se risos, viam-se caras de espanto, e os anciãos não se privavam de interagir com os actores. A audiência ia aderindo à peça ou não fosse esta feita à sua medida. Estamos a falar de um enredo pautado por amores, desamores, encontros, desencontros, beijos, muitos beijos, loucura, solidão e a enorme falta de um carinho, de um simples toque.
Bibiana Mota, a actriz que deu vida à “Ti Olga”, contou-me: “na peça eu tenho de estar descalça e o chão está muito frio. Houve uma senhora que tocou nos meus pés e chamou-me pobrezinha por estarem muito frios. Foi muito engraçado.” Foi engraçado e curioso, ou não fosse esta uma peça sobre o toque ou a falta dele.

Interpretação da peça “À Manhã” pela Filandorra
No final voltei a perguntar se gostaram da peça e da experiência de irem ao teatro. Desta vez as respostas não divergiram, todos responderam um alegre “sim”. O sorriso, por si só, denunciava o gosto por uma tarde diferente.
A peça esteve em cena nos claustros até ao dia 31 do mês de Março, com uma sessão à tarde, reservada para a terceira idade, e uma outra à noite. Março, o mês do teatro, foi ainda celebrado pela Filandorra com 30 espectáculos que tiveram lugar em oito concelhos distintos do interior norte.
Para serem realizados 30 espectáculos num só mês é preciso, de facto, muito trabalho. David Carvalho advertiu-nos que quando assim é, tem de contar com a versatilidade dos seus actores que, por vezes, “têm de decorar e trabalhar vários textos em simultâneo.” Diogo Medeiros, actor da companhia, corroborou a afirmação e acrescentou: “eu gosto imenso de trabalhar na Filandorra, não temos um alto salário mas o bom ambiente que se vive aqui supera isso. Tenho a oportunidade de visitar várias terras, entrar em contacto directo com as pessoas e trabalhar no que gosto – o que é muito bom.”
Desde 1987 que a Filandorra tem desempenhado um papel preponderante na descentralização do teatro. O corte orçamental de 38% não deixou cumprir à risca o que estava programado para este ano, mas as escolas, a rede de municípios que construiu e os trabalhos de animação que tem desenvolvido, resguardaram a companhia. É com agrado que Silvina Lopes me diz que as salas ficam cheias a cada espectáculo dado pela companhia: “o auditório que temos na nossa sede não tem ar condicionado, mas mesmo com o frio que se faz sentir as cadeiras nunca ficam vazias.” Com 25 anos de existência, a mais antiga companhia de teatro transmonta já realizou cerca de cinco mil espectáculos para um milhão de espectadores.
A turma que foi dispensada da aula para ir ao teatro já saiu do auditório. Alguns gostaram, outros nem por isso. Alguns voltarão ao teatro, outros nem por isso. Alguns ainda vão com a cabeça no ar porque descobriram que as personagens das estórias podem ser reais, nem que seja por um bocadinho.