“Admito que para muitos estudantes este seja um ano perdido, o que não é bom.”
O professor Marcelo Rebelo de Sousa compareceu ontem, sexta-feira, na Aula Magna da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real: local onde proferiu uma palestra multidisciplinar que teve início às 14h30 e durou até ao final da tarde.
Desde o estado do país até à agricultura, um interesse pessoal acalentado pelo professor, foram vários os assuntos abordados na tarde de ontem, mas a tónica da palestra centrou-se nos jovens e nas dificuldades sociais que se encontram a viver devido à crise actual. Para os alunos presentes deixa o aviso de que “vão viver a um ritmo muito mais acelerado e vão mudar de actividade muitas vezes ao longo da vida”, o que a seu ver “não é um drama” uma vez que vão ter a oportunidade de “criar empresas, destruir empresas, criar postos de trabalho e marcar presença em campos diversos”. Aproveita para acrescentar que actualmente “saber resolver problemas é crucial” mas há que conjugar “a cabecinha, o coração e a vontade”.
Quando questionado pelo público sobre o aumento do abandono escolar no ensino superior, o professor considera que este é um problema sério, principalmente quando os números são mais elevados do que o previsto. Avança, no entanto, com duas possíveis soluções: “a primeira solução é, apesar de tudo, haver um esforço feito pelo estado, sabendo-se que hoje não há dinheiro, mas a pensar especificamente no factor estratégico que é a formação superior em termos de competitividade e em termos da tal reforma estrutural. É uma questão estrutural financiar a elevada qualificação daqueles que depois vão intervir na economia da sociedade portuguesa. Uma segunda hipótese é diferenciar as propinas consoante a capacidade financeira do agregado familiar, como as taxas moderadoras.” Sobre a possibilidade de se aumentar as propinas para todos os alunos a fim de ser criado um fundo para os mais carenciados, Marcelo Rebelo de Sousa diz tratar-se de uma terceira hipótese, mas a pior de todas “porque há muitos estudantes que estão agora a deixar de estudar ou a suspender os seus estudos. Noutros tempos era dramático, definitivo, agora já não é assim, no entanto, como estamos em crise, pode converter-se, pelo menos, numa situação duradoura, porque quando as pessoas suspendem os estudos têm de ir trabalhar.” Completa dizendo que “quando assim é podem perder a ligação à instituição e vão-se distanciando. Podem dizer que mais tarde voltam mas tudo tem o seu tempo na vida.”
À imprensa, depois da palestra, explicou que “como este foi um problema que surgiu de repente, com uma dimensão social mais grave, o Ministério da Educação está com dificuldades em lidar com a questão, no entanto, penso que se encontra a estudar a situação para averiguar se é tão grave como parece. Também acho que mesmo com pouco dinheiro o ministério está tentar por de pé um mecanismo para fazer face a esta realidade.” Acrescenta que “estas medidas demoram o seu tempo, como é lógico, e o ano lectivo está a chegar ao fim. Admito que para muitos estudantes este seja um ano perdido, o que não é bom.”
Ainda à comunicação social, que quis saber se o programa “Passaporte Jovem” não tenderá a prolongar a situação dos estágios e adiar desta forma o primeiro emprego dos recém-licenciados, Marcelo revela que o programa “tem todos estes riscos mas tem a vantagem de evitar a desocupação funcional de muitos jovens, um problema económico mas também social. Pode não abrir a porta para empregos definitivos, mas mantém durante o período mais agudo da crise um folego transitório, na expectativa de que em 2013, 2014 e 2015, a situação seja melhor.
O esquecimento de Trás-os-Montes face a Lisboa também foi um dos assuntos relembrados pelo público nesta palestra. Para o professor, natural de Braga, a solução passa pela criação “de lobbies políticos e comunicacionais junto da capital. A comunicação social tem aqui um papel preponderante”, explica.
A génese da crise europeia não foi deixada de fora desta palestra. Segundo o comentador da TVI “há uma crise de reconversão do capitalismo em curso que se tornou mais clara com a crise norte americana de 2007-08, mas não está concluída, está atamancada, disfarçada, porque os problemas são exactamente os mesmos que existiam ou voltaram a existir.”
Relembrando o especulador húngaro-americano George Soros, Marcelo refere que a Europa está a assistir ao “esgotamento do objecto fantástico tal como ele foi concebido. É preciso recriar esse objecto fantástico para o futuro com novas verbas. Porque é que se esgotou? Porque foram dados os paços todos até se chegar à moeda única.” Aproveita para acrescentar que “o passo para a moeda única foi dado sem haver união política, sem se prever a hipótese de haver crise em economias mais débeis por força dessa mesma moeda. Não havia nem fundos para isso, nem medidas para isso. Quando faliu a “Lehman Brothers” a Alemanha apelou aos países europeus para verem se isso não afectava os respectivos bancos, mas devia ser a Europa em conjunto a fazer esse mesmo aviso. Foi o primeiro grande erro.”
Ainda houve tempo para abordar a sua experiência enquanto comentador televisivo e confessa que “dá muito mais trabalho do que se pensa. A dose de improviso é muito rara mas por vezes é precisa”. Revela que é mais “complicado sintetizar os conteúdos do que propriamente a análise” e é uma tarefa ingrata escolher, por exemplo, cinco instituições das 200 que lhe aparecem todas as semanas. Em tom jocoso diz ainda que vive complexado por ter a maior parte da poesia portuguesa “à moda comigo”, porque dos 100 livros que lhe são enviados todas as semanas é-lhe impossível falar de todos.
O que mais concretiza Marcelo Rebelo de Sousa é ser pedagogo, a seu ver a sua maior vocação. A comunicação social foi apenas um meio para alargar o seu auditório e chegar a mais pessoas. Confessa que é um apaixonado pelos meios de informação e não se esquece de frisar que “estamos no século da comunicação”.